Por
Johnny Bernardo em 28 de outubro de 2013
Publicado originalmente em Gospel+: http://colunas.gospelmais.com.br/
O paralelo entre o espiritual e o material (ou social) há séculos é
interpretado de diversas maneiras. A grande dificuldade é em saber quais
os limites entre a vida espiritual de um adepto, e sua realidade
social. De forma geral, todas as religiões interferem de alguma forma no
cotidiano de seus seguidores.
Questões associadas à vestimenta, à alimentação, ao entretenimento
são discutíveis em grupos religiosos pertencentes, por exemplo, ao
cristianismo e ao islamismo. Outras restrições, como a do acesso aos
meios de comunicação (televisão, rádio, revistas, internet) e a
publicação de listas de “livros proibidos” aos membros ou cidadãos de um
país confessional, também são interferências diretas na forma de vida
dos indivíduos.
No Irã – e em outros países islâmicos confessionais, dirigidos com base na
Sharia
– a religião não é simplesmente um elemento social, parte de um
contexto geral da sociedade, mas permeia todos os aspectos sociais dos
iranianos, com restrições e punições igualmente severas. A execução de
16 rebeldes opositores, neste sábado (26), no Irã, e a postagem de
vídeos por uma muçulmana dirigindo, na Arábia Saudita - é proibido as
mulheres dirigirem -, são dois exemplos recentes.

A religião também é usada em alguns países ocidentais como um
mecanismo de controle, de influência política. Mesmo com o avanço da
democracia, da laicidade do Estado, a religião ainda é um elemento que
exerce forte influência em governos, em discussões de abrangência
universais. Há séculos o Catolicismo Romano se utiliza de mecanismos de
submissão, seja quando das cruzadas, das inquisições, dos
cerceamentos
científicos, da indução ao belicismo e aos conflitos étnicos.
Aspectos constitucionais, das leis, em muitas ocasiões são
desrespeitados por denominações religiosas, como os que praticam a
poligamia nos EUA (ver Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos
dos Últimos Dias), ou que induzem seus membros a doarem mais do que o
necessário para à manutenção de sua estrutura organizacional. Neste
segundo aspecto, o neopentecostalismo brasileiro se destaca pelo o fato
de que exerce forte domínio psicológico sobre seus adeptos.
O fanatismo religioso – particularmente no que se refere às igrejas
pentecostais extremistas, a exemplo da Igreja Deus é Amor, Sinos de
Belém Missão das Primícias e Congregação Cristã no Brasil, para citar
algumas igrejas – se traduz pelo o que o membro pode ou não fazer. Por
exemplo, a persistência da IPDA em proibir o acesso à televisão, à
vestimenta já adotada por outras igrejas, à prática esportiva e ao
entretenimento, interfere de forma radical na vida de seus membros.
Apesar das restrições impostas pela IPDA, a tendência é de que,
futuramente – como em uma eventual ausência de seu líder máximo, David
Miranda -, ocorram mudanças semelhantes as que vêm ocorrendo nas
Assembleias de Deus – particularmente desde que a televisão e os usos e
costumes foram liberados aos membros. A dificuldade de assimilação dos
limites entre o espiritual e o social é um sério problema porque gera
transtornos dificilmente irreparáveis na medida em que a capacidade
crítica, de vivência social, de um fiel é seriamente prejudicada e
limitada.
Há questões econômicas, de controle, por trás do fanatismo religioso
que ultrapassa os limites pentecostais, cristãos, e que são perceptíveis
na forma como organizações com forte atuação no Brasil (como as
Testemunhas de Jeová) se articulam no cenário religioso. Nas TJ, a
maneira quase militarizada como seus membros são organizados, e a
influência exercida sobre as famílias (inclusive com proibições de
contato com membros disciplinados – a preguiça também é tida como
aspecto passível de disciplina) são retratados em filmes como
To Verdener (Mundos Separados).
Produzido pelo dinamarquês Niels Arden Oplev, em 2008,
To Verdener
retrata a história de Sara (Rosalinde Mynster), uma jovem de 17 anos
que foi criada com base nos ensinos das Testemunhas de Jeová, e que se
vê em situação de conflito após iniciar um relacionamento com o ateu
Teis (Johan Philip Asbaek). Disciplinada pelos anciões de sua
congregação, Sara passa a ser rejeitada por sua própria família. O
enredo, baseado em uma história verídica, é algo comum nas TJ.
Manipulação, restrições, cerceamentos, mortificações, são mecanismos
de controle psicológico, característico de grupos destrutivos, e que
visam explorar financeiramente adeptos. Novamente, todas as religiões
possuem algum nível de influência no cotidiano de seus membros, mesmo
que em alguns casos de forma não perceptível ou racional.
Neopentecostais, pseudocristãos, são citados como exemplos, mas há
inúmeros outros que se enquadram na proposta de análise da matéria.
Resumindo, o ponto principal a ser tomado como foco de análise é até que
ponto uma religião pode interferir na vida de um adepto? Restrições
como a de acesso a livros, a da ingestão de certos alimentos (como café e
chá preto, no caso do Mormonismo), à participação em eventos festivos,
recreativos ou de entretenimento (como no caso de algumas igrejas
pentecostais, a exemplo da IPDA), de inserção em cursos universitários
(como no caso das Testemunhas de Jeová), e aos direitos da mulher (como
no caso do islamismo), são questões a serem investigadas mais de perto.
Por Johnny Bernardo - é pesquisador, jornalista, escritor, palestrante, colaborador de
diversos meios de comunicação e licenciando em Ciências Sociais pela
Universidade Metodista de São Paulo. Há mais de dez anos dedica-se ao
estudo de religiões e crenças, sendo um dos campos de atuação a
religiosidade brasileira e movimentos destrutivos. Contato:
pesquisasreligiosas@gmail.com